Antonio Prata

Crônicas e outras milongas

 

No further questions, your honor

 

 

Poema de Natal

Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

 

    Mundo grande
    Carlos Drummond de Andrade 

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.


Escrito por Antonio Prata às 02h37

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Houston, we have a problem

           Publicado na revista Wish, edição especial HOMEM                                     

 

Pode parecer um pouco inconveniente tocar no assunto justamente numa edição dedicada ao homem – algo assim como falar em acidentes aéreos quando o avião começa a taxiar na pista –, mas é sempre melhor encarar nossos medos do que varrê-los para debaixo dos lençóis: estou falando da – hum, hum - broxada.

Quem nunca falhou, que atire a primeira pedra. (Ou seria mais adequado dizer: a primeira pena?) Poucas situações são mais frustrantes na vida de um homem. A mulher ali, nua, sua, bela e cheirosa, e você lá, frouxo, mocho, troncho, incapaz de desfrutá-la. É como estar no Playcenter, com o Passaporte da Alegria nas mãos, mas ser pequeno demais para andar na montanha russa.

Nessas noites inglórias, quando o sujeito percebe que a ansiedade está vencendo o desejo e que ele encontra-se, literalmente, em maus lençóis, costuma perguntar-se por que, ó Deus, está sendo castigado. Durante o jantar, tudo ia tão bem; ainda no elevador, ao beijar a moça, os sinais vitais estavam claros e perceptíveis...

Em filmes, seriados e programas de humor, o que faz um homem falhar é sempre um defeito da mulher. Na hora agá, o I-pod da moçoila desenterra um antigo hit do Trem da Alegria, ela diz que seu maior ídolo é o Papa Bento XVI ou, ao tirar a calça, revela um grande escudo do Palmeiras tatuado na nádega esquerda.

Sejamos francos, meus caros: um homem jamais brochará por conta de um defeito da mulher. (Mesmo um defeito incontornável, como torcer para o Palmeiras.) Muito pelo contrário, é a admiração que nos derruba: os defeitos nos excitam. Quem o diz não sou eu, mas Sigmund Freud. Em 1912, o pai da psicanálise dedicou um texto inteiro a explicar porque, às vezes, o charuto recusa-se a funcionar como um charuto: “Sobre a tendência universal à desvalorização na esfera do amor”.

A coisa funciona (ou melhor, não funciona) da seguinte forma: quando somos bebês, o desejo erótico é todo direcionado à mãe. Logo, contudo, percebemos que fazer sexo com aquela que nos pôs no mundo é proibido e tido como algo sujo e repulsivo. Somos, então, tomados por um grande sentimento de culpa e vamos para um canto do parquinho, tramar a morte do pai e sofrer em silêncio a perda do primeiro e insubstituível grande amor.

Pois bem, quando você é adulto e conhece uma mulher muito perfeita, a famosa “mulher pra casar”, o inconsciente a liga imediatamente à sua mãe, trazendo à tona aqueles velhos e conflituosos sentimentos e fazendo com que o sangue que deveria estar todo concentrado lá embaixo suba para as bochechas, enquanto você decide se abrirá a fala com “nunca me aconteceu antes” ou “sabe, acho que exagerei no vinho”.

Segundo Freud, para que o desejo flua normalmente é preciso que desvalorizemos de algum modo a mulher, distanciando-a assim de nossa sagrada progenitora. É por isso que, segundo ele, tantos homens procuram mulheres de classes inferiores, ou intelectualmente mais fracas. É por isso que, para desespero das moças mais finas, não importa quantos livros tenhamos lido ou quantos diplomas obtido, sempre nos sentiremos atraídos pela vulgaridade, por dois argolões dourados e um decote cavado.

Isso não significa, evidentemente, que só as cachorras do funk são capazes de mexer com a libido masculina. Mas significa que, para o surgimento do desejo, o homem precisa conseguir imaginar a mulher com quem estiver, por mais elegante que seja, dançando um funk pancadão – metaforicamente falando, é claro.

Toda essa teoria, contudo, de nada adianta quando você se vê envolvido naquela pequena tragédia, filha da ansiedade, mãe do desespero. Nessas horas, é preciso agarrar-se às palavras de outro sábio europeu, oriundo da Bélgica, Jean Claude Van Damme: “retroceder nunca, render-se, jamais!”, pois é mais digno cair lutando que bater em retirada. E se, mesmo seguindo a máxima do Grande Dragão Branco, você perceber que a brochada é inevitável, meu amigo, relaxa e prosa. É sempre possível que uma boa conversa no vestiário mude a atitude do time no segundo tempo. Ou não: afinal, acidentes acontecem. Desculpe tocar no assunto...

Escrito por Antonio Prata às 04h52

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Antonio Prata Antonio Prata é escritor e colunista da Folha.


BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.