Antonio Prata

Crônicas e outras milongas

 

Socialmente

Publicado na revista Wish

Como todo mundo, eu comecei pelo e-mail. Algumas vezes por dia, no meio de um texto, minimizava o Word e abria o Outlook. Não é que eu estivesse à espera de alguma mensagem importantíssima – como percebi com o tempo, importa menos a mensagem do que a expectativa em relação a ela, o milionésimo de segundo em que vemos surgir aquela linha em negrito e pensamos: quem será? O que dirá? É como a bolinha girando na roleta, a carta deslizando sobre o feltro verde, em sua direção; o futuro numa compota; o porvir num grão de areia.

Percebi que a coisa estava fugindo ao meu controle quando me peguei, diante da caixa de entrada vazia, clicando ansiosamente no ícone “enviar e receber” — uma, duas, três vezes em seguida. Como todo viciado, inventava justificativas para não encarar a situação. Dizia a mim mesmo: se clico tanto é porque pode ter algum e-mail preso ali, nalgum gargalo eletrônico, precisando apenas de uma chacoalhada pra cair. Ou: vai que alguém me escreveu justamente um segundo depois da primeira clicada? É preciso tentar de novo, e de novo, e…

Enquanto fiquei apenas no e-mail, a vida seguiu sua marcha – um pouco mais lenta, claro, devido a tantas interrupções postais, mas seguiu. O e-mail, agora sei, é a maconha do mundo digital. Viciante, sim, mas não muito nocivo. A droga que iniciaria minha derrocada, a cocaína do mundo virtual, ainda estava para ser inventada: o Orkut.
Quando ele apareceu, em 2006, eu caí de nariz. Abandonava trabalho, família, interrompia sexo e refeições no meio só para percorrer, de um lado pro outro, eufórico, as catacumbas sem fim daquele inferno azul bebê. Brotava conhecido de tudo quanto era lado: primo que você não via desde 83, namoradinha da terceira série, a turma inteira do segundo B se comunicando: “não acredito, o Luba virou veterinário!”, “nossa, a Vanessinha ficou gostosa!”, “quem aí lembra da Mariana Leme, que espirrou na aula de ciências e voou meleca na professora?!”.

Quando a moda passou e percebi que se não via todos aqueles conhecidos havia duas décadas era por não termos mais patavinas em comum, já era tarde: estava completamente viciado em rede social.
Tentei me salvar. Saí do Orkut e disse a mim mesmo: vou me curar. Vou tirar os olhos da tela e recolocá-los no mundo. Veio o Myspace, eu ignorei. Vieram o Linkdim e o Flicker, não dei bola. Mesmo diante do Facebook, a rede de todas as redes, evitei a recaída. Até que surgiu o Twitter. “Que mal tem?”, me perguntaram os falsos amigos. “São só 140 caracteres! Experimenta, todo mundo usa: O Obama, o Tom Waits, a Xuxa! Vai!” Eu fui.

Se o e-mail era a maconha e o Orkut a cocaína, o Twitter é o crack. Nos dois meses seguintes, eu fingi que trabalhava, eu fingi que conversava, eu fingi que vivia, mas minha cabeça estava todo o tempo pensando em sacadinhas para tuitar. Ouço um trovão, penso: “chuva, raio, São Pedro… O que pode haver de engraçado e curto, aí?”. Panetones surgem no mercado, começo: “panetones, natal, mercado, vamos lá, Antonio, o que dá pra escrever em 140 toques sobre o assunto?” Nos últimos meses, vi jogos de futebol, debates e a reprise de Vale Tudo com o lap top no colo, tuitando, retuitando, checando retuites, até minha cabeça dar tilt.

Foi no salvamento dos mineiros chilenos que me dei conta da gravidade da situação. Ao vê-los ali, nas entranhas da Terra, e ter o sentimento de solidariedade solapado pelo desejo de tuitar piadinhas, percebi que era eu quem estava no fundo do poço. Como o drogado que rouba a mãe para alimentar o vício, eu estava prestes a abrir mão da dignidade em troca de 140 caracteres engraçadinhos.

Nas 24 horas seguintes, enquanto a Phenix trazia os mineiros da escuridão da caverna para as luzes dos flashes, eu viajava de avião, barco e canoa para um vilarejo isolado, às margens do rio Tapajós, onde agora me encontro. Aqui não há computador, luz, nem mesmo caneta esferográfica. Escrevo essa crônica com um toco de carvão, num pedaço de papel de embrulho. Seu Leôncio, um garimpeiro amigo meu, é quem a enviará à Wish, por telex, em São Nonato do Caribó, cidade mais próxima. Espero que o isolamento funcione, pois do twitter, assim como do crack, só existem duas saídas: a cura ou a morte. Seja o que Deus quiser.

Escrito por Antonio Prata às 03h47

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Leitura de pés

         Publicado na revista Wish

 

As irmãs da Cinderela que me desculpem, mas pé bonito é fundamental. Eu seria incapaz de me apaixonar por uma mulher com pés feios. Confesso até que tenho certa dificuldade em manter uma amizade depois que descubro o que algumas pessoas escondem dentro de seus sapatos, pois acredito que ali, na última fronteira do corpo, condensa-se uma espécie de resumo de cada indivíduo, uma verdade que, uma vez revelada, não pode mais ser esquecida. Mostra-me com o que andas e te direi quem és – eis a minha filosofia podal.

Entenda, caro leitor: não estou falando aqui sobre o caráter. Há pessoas boníssimas com joanetes medonhos e não estranharia se soubesse de santos com unhas encravadas ou nóbeis cheios de calos amarelentos. (Acho até que pés feios combinam com a pureza de espírito, a atividade intelectual – o pensamento ou o coração nas alturas tem, como contrapartida, o desdém pelas coisas baixas, chãs). O que essa parte do corpo traz, a meu ver, é a chave da compleição estética de cada indivíduo. Pés são uma espécie de maquete metafórica da anatomia.

Vejo uma mulher. Pode ser linda, mas se as sandálias revelam dedos feios, com juntas angulosas – desses que parecem cordas, cheias de nós - debruçando-se sobre a sola, de um instante pro outro, toda ela se transforma em pé: o nariz é uma junta, o antebraço é uma falange, a maçã do rosto, saliente - que antes podia até ser uma bela característica –, é agora apenas mais um defeito daquela nodosa figura.

O leitor pode dizer - em defesa de seus atributos físicos ou dos alheios - que o gosto é subjetivo e que a beleza existe nas mais variadas formas. Concordo no que se refere a rostos, quadros ou flores, mas não a respeito dos pés. Uma mulher pode ser bela por ser exótica; um quadro, valioso por sua ousadia e, realmente, é impossível afirmar que a desfraldada camélia é mais ou menos perfeita do que a discreta violeta. Meu relativismo abarca tudo: menos os pés. Neste ponto, sou platônico: existe um pé verdadeiro, bom e belo, que vive no mundo das ideias; todos ou outros são cópias, mais ou menos próximas, dessa matriz ideal.

O pé inteligível e perfeito é discreto: quanto menos chamar a atenção, mais bonito será - originalidade e ousadia são defeitos, nessa área. É arqueado. A unha do dedão é um trapézio invertido e proporcional. A curvatura, tanto na cutícula quanto lá na frente, é pouco acentuada. O dedo médio é ligeiramente menor do que o dedão e todos os outros vão diminuindo gradativamente, até chegar ao dedinho. As unhas têm que ser pequenas e parecidas. As juntas devem ser discretas, preferencialmente invisíveis. O dedinho precisa ter unha de verdade, não apenas aquele fiozinho, e não pode ser despregado dos demais, como um caçula impedido de brincar com os irmãos mais velhos. O modelo serve tanto para homens quanto para mulheres, sendo os femininos menores e delicados, os masculinos maiores e mais fortes.

Longe de mim, com este texto, estimular o preconceito, assoprar a imortal brasa da eugenia. Eu mesmo, devo confessar, não sou dono dos pés mais bonitos do mundo: eles são chatos como um ferro de passar. Quando criança, minha irmã não se cansava de rir das pegadas que eu deixava no chão, ao sair do banho. Dizia que pareciam as de um pato. É o tipo da coisa que a gente tem que aceitar. E entender o significado: a falta de arco tem tudo a ver com minha tendência para ganhar peso, e também com uma postura que nunca foi das mais retas. Isso é óbvio. A leitura de mãos é uma crendice besta, mas a leitura de pés, meus caros, não falha.  Pode reparar.

 

 

 

 

Escrito por Antonio Prata às 13h00

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Antonio Prata Antonio Prata é escritor e colunista da Folha.


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