Antonio Prata

Crônicas e outras milongas

 

Coluna de hoje

Atropelando todo mundo. Sobre o niilismo de salão e o atropelador de bicicletas.

Escrito por Antonio Prata às 16h40

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Rilke Shake

            Eu tenho dois amigos, o Chico Mattoso e o Fabrício Corsaletti, que de tempos em tempos entram numas e ficam viciados em determinado escritor. Tiveram a fase Salinger, depois a fase Gombrowicz, a fase Graciliano Ramos... O bom é que eu aprendo muito, ouvindo o que eles têm a dizer sobre os autores, e até leio uns pela primeira vez, como no caso do Gombrowicz. O problema é que eles não te deixam escolha, ou você entra na deles e lê pelo menos um livro do escritor da vez, ou esquece, eles te tratam com um apiedado desprezo e mal te deixam participar da conversa.

Pois, faz uns seis meses, o Fabrício começou com a fase Angélica Freitas. “Já leu Angélica Freitas?!”. “Cara, Angélica Freitas é genial!”, “E aí, comprou o livro da Angélica Freitas?!”. Depois de uma semana de insistência, ele me enviou por e-mail uns poemas da Angélica Freitas. E tinha toda razão. São mesmo geniais. Leves e profundos. Engraçados e tristes. Fazem-me lembrar dos poemas do próprio Fabrício, do Leminski, do Bandeira e dos romances de Kurt Vonnegut. Mas acho que as referências dizem mais sobre as minhas limitações literárias do que sobre a poesia da Angélica.

Abaixo, seguem dois deles, publicados no livro Rilke Shake e extraídos do site http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2011/02/alguns-poemas-memoraveis-da-ultima_13.html , onde há um ensaio sobre a autora.

 

 

o que passou pela cabeça do violinista em que a morte acentuou a palidez ao despenhar-se com sua cabeleira negra & seu stradivarius no grande desastre aéreo de ontem



mi
eu penso em béla bártok
eu penso em rita lee
eu penso no stradivarius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso


mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three

 

às vezes nos reveses

penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses

Escrito por Antonio Prata às 00h15

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Antonio Prata Antonio Prata é escritor e colunista da Folha.


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