Antonio Prata

Crônicas e outras milongas

 

Ficção

Em tempo. O texto publicado hoje na Folha, Separação, é uma peça de ficção. Nenhum animal morreu para que ele tenha sido escrito e meu casamento vai muito bem, obrigado. Agradeço aos amigos que ligaram preocupados e aviso ao PETA e ao Greenpeace que não precisam invadir meu e-mail nem transformar-me em persona non grata entre ecologistas. Grazie mille.

Escrito por Antonio Prata às 11h23

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Os movimentos, as palavras e uma chaleira em, digamos, Santa Rita do Passa Quatro

Texto escrito para a São Paulo Companhia de Dança e publicado no livro Sala de Ensaio - Impresna Oficial.

 

São onze e quinze da manhã. Numa sala da Oficina Cultural Oswald de Andrade, de parede espelhada, janelas compridas e chão de linóleo preto, quarenta e um bailarinos esperam, em silêncio, o início da música. Lá de fora vem o burburinho do Bom Retiro: o motor de um ônibus se mistura ao pio dos passarinhos, os gritos das crianças, na saída da escola, chegam junto às vozes dos pedestres e lojistas negociando tecidos, esfirras, roupas, burekas e folhinhas de zona azul.  

Quando a primeira nota soar pelas caixas de som, os bailarinos começarão a ensaiar a coreografia Passanoite, de Daniela Cardim, na qual vêm trabalhando há semanas. Todo dia é assim, acordam cedo, pegam metrô, ônibus, carros e vão até a sede da companhia, onde passam oito horas dançando. São funcionários públicos, com holerite, polainas, ISS e sapatilhas, pagos pelo Estado para transformar idéias, histórias e emoções em movimento. É isso o que eles fazem da vida.

A maioria das pessoas, no Brasil – e eu me incluo entre elas -- não está acostumada a frequentar balés. Eis a missão da São Paulo Companhia de Dança: montar espetáculos clássicos e modernos, que formarão  um público, capaz de fruir dessas idéias, histórias e emoções por trás – e por cima, por baixo e ao lado – dos movimentos.Notas de piano soam pelas caixas de som e uma bailarina põe-se nas pontas dos pés, levantando minha primeira questão: por que põem-se nas pontas dos pés, as bailarinas? Para ficarem mais altas? Mais finas? Será um exercício de equilíbrio e força? Diabos! É preciso entender uma imagem tão linda? Não basta que ela exista, longilínea e bela? Afinal, as imagens são lindas porque significam algo, não? A flor, exemplo mais banal da beleza, só nos toca porque é a arma que a planta inventou para, durante um breve período, convencer pássaros, insetos e rapazes apaixonados a espalharem seu pólen por aí. No dia seguinte, já era.  Talvez seja isso: nas pontas dos pés, a bailarina tripudia do chão, da terra, desse mundinho chinfrim onde as flores murcham -- e nós também. Ereta, ela nos ajuda a esquecer que somos mamíferos, vertebrados, primos não muito distantes das samambaias, trutas e tamanduás, e nos aproxima do céu, onde suspeitamos parentescos com deuses e alimentamos outras vagas esperanças. Sua ferramenta é o corpo, mas sua meta é perecer incorpórea? Por isso, diz aquela música: “procurando bem, todo mundo tem piolho, só a bailarina que não tem”?          

Três bailarinos a cercam. Tocam-na, puxam-na, giram-na em seus braços, levantam suas pernas. Estarão cortejando a moça? Disputando-a? Ela se contorce no braço de um, parece entregue, mas ergue-se, cai nos braços de outro. A música é romântica. Como sei disso? Se não entendo nada de música, mas capto o significado da melodia, porque não compreendo a narrativa que contam-me esses corpos? Antes de falarmos, nos movemos. Antes mesmo de distinguirmos as imagens borradas que nos entram pelas retinas, buscamos o peito com a boca, as mãos, a cabeça, o pescoço. Dentro do útero, somos só movimento, água morna e movimento.

Dois bailarinos saem do palco. Ela fica só com um. Sei, pela minha experiência, que quando muitos homens estão em torno de uma mulher e depois ela sai com apenas um deles, é porque ele foi o escolhido. Assim é com os pretendentes, nos contos de fada, assim era nas festas da adolescência. Agora, homem e mulher dançam juntos. É isso. Estou assistindo a uma história de amor. Bastava ter prestado atenção ao título: Passanoite. Claro!

Ou não?! A música muda. Suspense? A bailarina deita-se no chão. Não parece nada contente, embora eu não tenha percebido briga alguma. Que movimento de pernas, tronco ou quadril fez com que os dois se desentendessem? Ela se encolhe. Isso eu entendo, está triste. Ninguém se encolhe de felicidade. Posso não saber nada de dança, mas movo-me, usando os mesmos membros, tronco e cabeça que esses bailarinos. Quando sofro, encasulo-me. Quando estou tenso, contraio os músculos das costas. Quando rio, chacoalho o corpo. Comemoro gols dando saltos e socos no ar. Não será a partir desse alfabeto comum de gestos que a dança se compõe, assim como a poesia constrói-se com as mesmas palavras que usamos para comprar roupas ou uma folhinha de zona azul? Quem só usa as palavras para tarefas como comprar roupas ou uma folhinha de Zona Azul, contudo, terá dificuldade de entender “mundo mundo vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução/ Mundo mundo vasto mundo,/mais vasto é meu coração”. E se o gesto é a palavra da dança, estou perdido, porque o poeta faz o que quer com a palavra, ele a espreme, a vira do avesso, mete a mão dentro dela e tira de lá significados insuspeitos. Quem sabe Daniela Cardim não fez a bailarina encolher-se justamente para mostra que estava contente?

Agora, dois bailarinos estão em cena. Um deles rodopia, outro rodopia atrás, com um pequeno atraso. Tudo o que um faz, o outro imita. Será a rima da dança? E, se a rima é uma espécie de afinidade, serão dois amigos, ali, brincando? Essa também é uma maneira de passar a noite, afinal. Quem sabe, são aqueles pretendentes desprezados pela donzela, que decidiram divertir-se, sozinhos? Seria o espetáculo sobre vários eventos durante uma noite?   

Talvez seja uma rima, mas não uma solução, pois ocorre-me que pode não haver narrativa alguma, tanto na cena como no espetáculo. E se for apenas movimento? Se os dois bailarinos girando juntos forem como duas pedras jogadas num lago, com suas ondulações consecutivas e paralelas? Como o vento movendo as folhas nas copas das árvores? Precisa haver enredo para o movimento? O universo não se expande por vaidade ou cobiça. Um rio não corre porque esteja bravo, ou eufórico. Não há fúria nem pressa nas cataratas do Iguaçu. Elas não são o clímax na epopéia de uma gota d’água, que iniciou-se no vapor de uma chaleira em, digamos, Santa Rita do Passa Quatro: é só movimento, e é belo, tanto é que, todo ano, milhares de pessoas viajam quilômetros, só para contemplar o espetáculo.

Não. Há sempre uma narrativa. Mesmo não havendo enredo nenhum nas cataratas do Iguaçu, cada um projeta ali uma história. Há quem veja nas quedas d’água a violência da natureza, há quem enxergue a harmonia nos arco-íris que se formam. Há quem fique calmo diante do estrondo, como se o jorro calasse seus próprios ruídos, há quem volte correndo para o ônibus da excursão, com medo de atirar-se do despenhadeiro. 

Sou trazido do despenhadeiro para o Bom Retiro pelos aplausos. O ensaio terminou. Os dançarinos saem da sala,deixando-me só com a bailarina nas pontas dos pés, tripudiando da morte, uma moça sendo cortejada por três rapazes, amigos desprezados, brincando de rimar, uma mulher triste, encolhida no chão, pedras atiradas num lago, uma chaleira em, digamos, Santa Rita do Passa Quatro, centenas de turistas japoneses, nas cataratas do Iguaçu, Drummond sentado num canto e os ruídos do bairro, entrando pelas janelas. Não vejo a hora de conhecer a coreógrafa e descobrir o quanto minha experiência divergiu de suas intenções.

Mais tarde, Daniela Cardim me conta que não pensa em enredo nenhum, quando cria um espetáculo. Imagina a coreografia inspirada pela música, apenas. A platéia que veja ali o que bem entender. Sem dúvida, se eu entendesse mais do assunto, veria muito mais coisas. Veria citações de outros coreógrafos, sotaques de outros países, pegaria, no meio de um salto, uma crítica irônica à determinada escola, depreenderia uma visão de mundo duma guinada de quadril, mas tudo bem. A São Paulo Companhia de Dança está apenas começando, tem dois anos de existência – Passanoite é o sétimo espetáculo, Polígono foi o primeiro e Gnawa, o sexto. Nós, o público, não precisamos nos afobar. A cada passo daqueles quarenta e um bailarinos, vamos aprender a enxergar mais idéias, histórias e emoções por trás – e por baixo, por cima e ao lado – dos movimentos. Que bom. Afinal de contas, é isso o que fazemos da vida, é isso o que nos diferencia das samambaias, das trutas e dos tamanduás: contemplamos os movimentos à nossa volta e damos sentidos a eles. Que venha o primeiro acorde.

 

 

 

Escrito por Antonio Prata às 17h01

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Antonio Prata Antonio Prata é escritor e colunista da Folha.


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