Antonio Prata

Crônicas e outras milongas

 

Crônica

Link para o texto de hoje, na Folha: "O aeroporto tá parecendo rodoviária!"

Escrito por Antonio Prata às 12h44

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O fim do moletom

Publicado na Revista Runner´s  

      

– Lá é frio – disse minha mulher –, como você vai correr?

Estávamos indo para Nova York, em lua de mel. Segundo a previsão, faria entre zero e cinco graus. Eu nunca tinha corrido àquela temperatura.

 

– De moletom, ué.

 

– Moletom? Calça e casaco de moletom?

 

– Aham.

 

Houve então um silêncio, durante o qual fiquei pensando, feliz, no quanto meu amor se preocupava comigo. Só quando abriu um sorriso sarcástico e disse:

 

– Sei. Tipo o Rocky Balboa, subindo aquelas escadas? –,  e deu uns soquinhos no ar, percebi que sua preocupação não era com meu bem-estar térmico, mas com a vergonha que passaria ao sair do hotel ao lado do marido em seu traje abrigo-completo. Revoltei-me:

 

– Escuta, moletom é pra isso! Como é que você acha que eles correm lá, no frio?!

 

Nos quinze minutos seguintes, ouvi uma pequena aula sobre a evolução das fibras sintéticas e a tecnologia esportiva no século XXI.  Segundo minha mulher, o moletom estava à beira da extinção e os “abrigos” sobreviventes eram mais raros do que os mico-leões dourados.

 

Fiquei triste. Envolto nesse morno e flexível material, enfrentei boa parte de meus momentos sobre a Terra – os primeiros, os mais difíceis. Na infância, criava um escarcéu toda vez que minha mãe queria me vestir calças jeans, camisas ou malhas de lã. Para que?! Aquelas roupas apertavam, impediam o movimento, pinicavam – sem contar a ameça do zíper, pequena guilhotina sempre à espreita. 

  

Lá pelo ginásio, os mais descolados foram trocando os moletons pelos jeans. Eu demorei para fazer a transição. Via, em minha insistência nas calças vermelhas, azuis, verdes e amarelas – com couro no joelho –, uma atitude de resistência contra a babaquice desconfortável e misteriosa chamada adolescência. Como se dissesse: “traiam vocês suas convicções em nome do status social! Eu permanecerei fiel às raízes, flexível e quentinho!”.

 

Só beirando a oitava série fui me render, ao perceber que, se algum dia pretendia despir-me diante de uma mulher, seria preciso, antes de mais nada, vestir uma calça jeans. Desde então, o moletom virou a roupa de casa, o pijama de inverno. E quando eu teria a chance de usá-lo novamente na rua, para fazer um esporte, minha mulher vem me dizer que já era?

 

Não lhe dei ouvidos. Pus meu conjunto na mala e parti pra América do Norte. Logo no primeiro dia, vesti o famigerado e fui correr no Central Park. De fato, muitos esportistas vestiam essas microfibras high-tech, mas para meu alívio avistei, lá e cá, corredores como eu, vindos diretamente do século XX, em seus velhos e bons “abrigos”.

 

Voltei da viagem tranquilo. Ao que parece, micos leões e humanos de moletom ainda poderão ser vistos por mais alguns anos sobre a face da Terra. Importante, agora, é trabalhar a relação, seriamente abalada por meu visual Rocky Balboa. Tudo bem. Nada que um bom jantar não resolva: de camisa branca, sapato preto e calça social, como convêm.

 

 

 

Escrito por Antonio Prata às 12h15

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Links para os textos publicados até agora, na Folha, que não estão aqui no blog. (Para assinantes da Folha ou da Uol)

Meias

O grande timoneiro

 

Escrito por Antonio Prata às 12h00

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Como não?!

 

 

Publicado na revista Espresso

 

 

“Obrigado”, eu digo, recusando a xícara e, um pouco mais baixo, para evitar que a informação escape para além da minha mesa, alargando o diâmetro de minha infâmia, confesso: “eu não bebo café”.

O nobre leitor (ou leitora) que, como 99% das pessoas civilizadas, creio, gasta um bom quinhão de seus momentos sobre a Terra diante de uma xícara de café, não imagina a miríade de olhares que caem sobre mim, assim que assumo o meu, digamos, desvio. Vejo, por trás das pupilas dilatadas pelo susto, sentimentos tão vastos como a raiva e a compaixão, todos oriundos, acredito, da mais profunda incompreensão. “Como pode uma pessoa alfabetizada, de boa família, não tomar café?!”, pensam, entre um golinho e outro,sem chegar a nenhuma resposta.

Nós, os não bebedores de café, somos a escória da restrição alimentaria. Você pode não comer carne vermelha, não apreciar bebidas alcoólicas, pode até ser contra o açúcar refinado ou refrigerantes e, oferecendo explicações muito nobres, que vão do efeito-estufa à evolução de nossos sistema digestivo, ser perfeitamente aceito dentro da chamada “diversidade cultural”, mas àqueles que recusam uma xícara de café não existe tal benevolência, pois acreditam, os connoisseurs dos grãs torrados, que não se trata de gosto ou opção, mas de ignorância.

Tenho amigos do peito que, toda vez que saímos para jantar, insistem para que eu dê mais uma chance ao expresso ou capuccino de tal lugar.” Não é que não gostemos, eles pensam, é que “não entendemos o café”. E, ah!, meus caros, como eu gostaria de compreendê-lo! Como eu adoraria passar tardes numas dessas mesas na calçada, tomando uma xícara, fazendo anotações num bloquinho, ou lendo um jornal, com a elegância de um filósofo francês. Eu concordo com meus acusadores. Vocês estão certos! Que literatura pode surgir diante de uma lata de Coca-light? Que lirismo existe na imagem de um homem tomando H2O, às três da tarde de uma terça-feira, no balcão da padaria? Que Simone de Beauvoir ou Maria Schneider pendurará sua capa de chuva na cadeira e estenderá um sorriso molhado a um sujeito que bebe uma Fanta-Uva? Light, ainda por cima.

Estou pensando em mudar de estratégia. Da próxima vez que recusar uma xícara e enfrentar a incompreensão da sociedade, vou dizer, sem pestanejar: “adoro café, mas fiz promessa. Só volto a beber no dia que a diretoria do Corinthians tomar vergonha na cara e moralizar aquele clube.” Como sabem os que bebem e não bebem café, não terei que aceitar a xicrinha tão cedo.


Ps. Escrevi este texto faz alguns anos. Não tenho hoje grandes críticas ao Cotinthians. Mas, nem por isso, passei a tomar café.

Escrito por Antonio Prata às 17h43

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Antonio Prata Antonio Prata é escritor e colunista da Folha.


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