Antonio Prata

Crônicas e outras milongas

 

Sobre o Blog

Então, meu povo, recebi umas reclamações por ter tirado do blog o texto "Meias".

 

É o seguinte: é norma da Folha não publicar as colunas impressas nos blogs, para incentivar as pessoas a lerem o jornal, ou assinarem a versão on-line. Faz sentido. Uma hora alguém ainda achará um jeito de termos conteúdo de graça e dinheiro para produzi-lo. Mas, enquanto isso, a imprensa, o cinema e a TV têm que se defender como podem. Portanto, de agora em diante, vou postar aqui só minhas crônicas pra outros veículos e as mumunhas feitas especialmente para cá. Quem sabe,talvez, isso não me obrigue a escrever mais pro blog?

Aqui vai o link pra Folha on-line: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/

 

Abs!

Escrito por Antonio Prata às 01h24

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Grande Marquinhos!

Publicado na revista Vip

                No último mês, passei por uma experiência interessante: não bebi. Nada. Trinta dias, de cabo a rabo, em que as únicas drogas a correr por minhas veias foram a fenilalanina da Coca-light e o pozinho do Miojo. Ok, talvez, se eu tivesse consultado um endocrinologista, ele me dissesse que era mais saudável afastar-me da fenilalanina e do Miojo do que da cerveja, mas como não conheço nenhum endocrinologista e queria era descobrir como seriam quatro semanas preso a um cérebro 100% sóbrio, 100% do tempo, o projeto foi a abstinência alcoólica.

                Não passava um período tão longo sem beber desde os quinze anos, quando, na festa de debutante da Lizandra, tomei meu primeiro chope. E logo o segundo, o terceiro, o quarto – no quinto tentei agarrar a Lizandra, no sétimo abracei a privada.

                Não posso dizer que aquele tenha sido meu último excesso. Houve, dos quinze anos para cá, outras noites bambas, em que soube por minhas próprias pernas que a Terra não era plana e fiz algumas besteiras das quais me arrependo: tentei beijar mulheres que só haviam me perguntando as horas, acordei ex-namoradas com SMSs enviados de mesas de bar – tipo, quarta-feira, 02:46 AM – resolvi assar uma paleta de cordeiro ou criar uma receita de chilli con carne, pouco antes do sol nascer. Acontece.

                Na maior parte do tempo, contudo, pude apreciar os efeitos do álcool sem grande prejuízo moral ou físico, e sou grato à natureza por ter nos dado esse brinquedo. Para começo de conversa, não fosse ele e eu provavelmente seria virgem até hoje. (Ou você acha que eu teria coragem de ficar pelado diante de uma garota, no auge da minha adolescência, completamente sóbrio? Na boa, só um psicopata é capaz de tamanha frieza.)

                Agradeço à bebida, sobretudo, pela forma como ela facilita as relações sociais. Nesses trinta dias a seco, fui a um lançamento de livro e duas festas. Descobri como é difícil, sem o auxílio glorioso de duas doses, estabelecer uma conversa minimamente sustentável com gente com quem você não tem intimidade. Interagir socialmente sem álcool é como acender a churrasqueira sem álcool: o papo não pega, você tem que ficar assoprando e abanando a brasa, pra ver se a coisa esquenta. Não esquenta. E por que? Porque a lucidez é maligna. Sóbrio, você tem o tempo todo a consciência de que aquela conversa é só fachada, de que nem você nem a pessoa diante de si têm interesse em saber nada um do outro, de que só estão perguntando como está o trabalho e se têm visto a Juliana ou o Marquinhos (Marquinhos? Você não se lembra de nenhum Marquinhos…) porque estudaram juntos em 1993 ou calharam de estar na mesma praia, em Ubatuba, em algum réveillon do século XX. E o que o álcool faz, na conversa? O mesmo que no carvão: cria chama sem calor, produz interesse genuíno onde, em sua ausência, haveria descaso. O cara te explica que se formou em veterinária e trabalha com zebu, em Uberlândia, você diz, “Zebu, genial!”, e começa a fazer perguntas. Quando vê, estão conversando animadamente sobre a corcova do boi, e você fica felicíssimo ao descobrir que é dali que vem o cupim, e que a carne chama cupim porque o calombo parece um cupinzeiro. Dez minutos depois, está convencido de que o sujeito é uma pessoa maravilhosa, que vocês têm que se ver mais, talvez até re-alugar a casa de Ubatuba para o próximo réveillon. Vocês trocam telefones e e-mails, dizem que se verão novamente em breve, e farão um cupim com manteiga, no alumínio, ou uma paleta de cordeiro. Você fala pra ele chamar a Juliana, ele diz que levará também o Marquinhos, que ficará feliz em saber do encontro. (Quem diabos será o Marquinhos, meu Deus?!).
É claro que nada disso acontecerá. Toda aquela animação só existiu porque estavam meio bêbados, mas e daí? Pelo menos se divertiram, durante cinco ou dez minutos, batendo um papo numa varanda ou na fila do banheiro. No final, a vida é isso: talvez haja meia dúzia de momentos retumbantes, um podium, os braços de algumas mulheres, uns aplausos, mas 99% do tempo você estará numa varanda ou na fila do banheiro, conversando com alguém com quem não escolheu conversar. Se não soubermos extrair graça desses momentos, vamos do berço ao túmulo de saco-cheio.

                Nesta altura do texto, ouço uma voz distante. Não sei se é minha mãe, minha mulher, meu psicanalista ou a Organização Mundial da Saúde: “mas precisa necessariamente de álcool, para se divertir?”. Coço a cabeça. Deve haver pessoas que se sentem absolutamente confortáveis em seus próprios corpos, todo o tempo, e são capazes de falar sobre zebus e se despir diante de desconhecidas sem nenhuma ajuda do etanol. Dalai Lama talvez consiga. Sr. Myiagi, quem sabe? Eu não. Eu preciso das duas doses dessa substância que algum ancestral iluminado inventou, num momento de lucidez – talvez seu último -, ao fermentar trigo, batata, uva, mandioca ou o que estivesse à mão e, num ato de indômita curiosidade, beber o líquido resultante.

               Claro, é bom ter sempre em mente a lição adaptada da sacola da padaria: beber bem para beber sempre. (Por “bem”, entenda: com parcimônia). Por isso um mês à seco. Por isso algumas noites por semana, em casa, só na Coca-light, assistindo um seriado ou lendo um livro. Para que aos 78 eu ainda possa falar empolgado, numa varanda ou na fila do banheiro: “Zebu, genial!” e mande abraço pro Marquinhos – grande Marquinhos! -, quem quer que ele seja.

Escrito por Antonio Prata às 11h52

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New Roman Times

Caros, desculpem a lambança de fontes e formatações deste blog. Em breve chegarei a um jeitão padrão. Eu, que sempre fui um Arial convicto, dei pra gostar de Times New Roman. Deve ser a idade. A gente começa a valorizar a serifa (esse rodapé nas letras) e outros confortos burgueses. Aver, a ver.

Escrito por Antonio Prata às 17h23

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Guia de Nova York

 

Paula Homor, minha querida cunhada, vive há cinco anos em Nova York, com seu marido Markus, austríaco, e minha linda sobrinha, Nina. Nina tem dois anos e fala português, inglês, alemão e uma língua própria, quando o cansaço bate, lá pelas oito horas da noite. (Eu desconfio que seja basco ou húngaro. Quem fala três línguas em casa não teria dificuldade de  aprender mais uma com um colega da escola, ou o pipoqueiro do parquinho, mas como não sei necas de nenhum desses idiomas, não tenho como descobrir).


Pois bem, há uns anos a Paula vem fazendo um Blog/guia da cidade, muito bacana, chamado NY with Kids, dando dicas e endereços para pais que vão à Nova York com as crianças. Agora ela se juntou a outras brasileiras desterradas e lançou um projeto mais ambicioso. Chama-se New York Local Guides.  São 16 guias, sobre 16 assuntos diferentes, que vão de galerias de arte a roupas para grávidas, passando por restaurantes, programas para adolescentes e outros tópicos. O legal é que você compra o assunto que te interessa pela módica quantia de US$ 1,99, recebe o arquivo em PDF e imprime em casa. Assim, não precisa sair com um catatau embaixo do braço, toda vez que puser o pé pra fora do hotel. (Ou apartamento alugado: o blog delas dá várias dicas de imobiliárias).


Se for para Nova York, ou souber de alguém que esteja indo, indico a página do NY Local Guides. Feito por gente que mora nos EUA, mas veio do Brasil. Ou seja, entende o que é legal lá e do que gostam os daqui. Quase tão versáteis quanto a Nina, minha linda sobrinha. (Pensando bem, talvez seja farsi sua língua do crepúsculo. Se não me engano, tem um iraniano na Deli da esquina. Bela Deli, aliás. Será que tá no guia da Paula?).

 

 

 

 

Escrito por Antonio Prata às 17h05

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São Silvestre, 1999

Publicado na revista Runner's 

 

 

Aos vinte e dois anos eu corri pela primeira vez sem ser para pegar um ônibus, fugir de ladrão ou por coação de um professor de educação física. Era janeiro de 1999, eu tinha parado de fumar e, com medo de dobrar-me aos insistentes apelos da nicotina, resolvi dar a meu corpo um tratamento de choque: me inscrevi para a São Silvestre.

 

Não foi uma decisão pequena. Até então, eu e o esporte não havíamos tido uma relação muito amigável. No futebol, sou tão ruim que até hoje não descobri se chuto com a direita ou com a esquerda. (Desconfio que, na verdade, com nenhuma das duas.) No vôlei, quando a bola vinha na minha direção, eu começava a entrelaçar os dedos, preparando uma manchete e geralmente só terminava a complexa operação quando o outro time já estava comemorando o ponto. Acho que nunca fiz uma cesta no basquete nem um gol no handball e, jogando tênis, juro, consegui quebrar o dente da frente, acertando-me uma raquetada. Até que, aos vinte e dois anos...

 

No final de janeiro, matriculei-me numa academia e expus ao instrutor meus objetivos. Ele passou-me treinos de corrida e musculação e comecei minha empreitada. O início foi terrível. Depois de dez minutos correndo, parecia que eu ia vomitar. E depois, morrer. Levou algumas semanas para que eu conseguisse correr meia hora, direto. (E pouco mais de um mês para que eu corresse meia hora, direto, sem achar que ia vomitar. E depois, morrer.) Nesse mesmo período, pela primeira vez na vida, encostei os dedos no chão, sem dobrar os joelhos. Senti o que devem sentir os atletas olímpicos, ao subir ao pódium. Em seis meses estava correndo dez quilômetros e, em novembro, na Praia da Fazenda, Ubatuba, corri os quinze, finalmente.

 

No dia 31 de dezembro, gabaritei as recomendações nas matérias dos jornais: tomei bastante líquido, comi macarrão com molho de tomate e, às cinco da tarde, em meio a um monte de Elvis, Rauls Seixas e grupos com faixas como “Associação de Ex-Bancários de Jacareí” e “Equipe Ponto Frio Sacomã”, saí da frente do MASP para correr minha primeira prova.

 

Eu não tinha ideia de que a São Silvestre fosse aquela festa. Não houve um metro dos quinze mil do percurso em que não houvesse gente nas calçadas, incentivando. Pais com os filhos nos ombros, balançando bandeirolas do Brasil, aposentados nas janelas, no Minhocão, acenando, famílias inteiras, na Brigadeiro, aplaudindo, garotas de programa, na Consolação, dizendo “ai, coração, vem suar aqui comigo!”. Bem, essas últimas não estavam exatamente incentivando-nos a continuar a prova, mas considerando-se o visual de algumas das profissionais, não deixava de ser um estímulo para sairmos correndo.

 

Fiz a prova devagar, terminei-a em uma hora e trinta e nove minutos e cheguei em oito mil e não sei quanto, atrás de muitos Elvis e Rauls, mas não me importei com tempo ou colocação, não era para isso que corria.

 

Há quem diga que, passados dez anos, já esteja na hora de tentar correr com uma bola nos pés ou nas mãos, mas acho melhor não. Em time que está ganhando, não se mexe – e essa é a maior vantagem do nosso esporte sobre todos os outros, podemos sair vitoriosos mesmo chegando atrás de um Raul com cabeleira no ombro e violão nas costas e de mais de um Elvis, de roupa de couro branca, na fase gordo.

Escrito por Antonio Prata às 14h28

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Antonio Prata Antonio Prata é escritor e colunista da Folha.


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