Antonio Prata

Crônicas e outras milongas

 

Vamos entrando

Caro leitor que por acaso, caso ou descaso veio dar aqui nestes costados: bem-vindo seja! Neste blog postarei as crônicas publicadas toda quarta no caderno Cotidiano, da Folha, além de textos escritos para outros veículos ou para cá confeccionados. Meu blog antigo http://blogs.estadao.com.br/antonio-prata/ deixará de ser atualizado, mas continua existindo, no fundo de algum HD ou no éter na internet, com meus escritos até 2010.

Espero que gostem do que aqui encontrarem. Críticas são bem vindas, desde que não botem minha mãe no meio. O mesmo vale para elogios.

E bom 2011 pra todos!

Escrito por Antonio Prata às 23h48

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Fiat Lux

                                    

 

Nos natais e réveillons da minha infância não havia luzinhas coloridas pelas ruas. Quando chegava o fim do ano, a cidade seguia vestida como de costume: as árvores exibindo seus troncos caiados de branco, os fios de telefone balançando os mesmos rabos de pipa e velhos pares de Kichute — sabe-se lá quando ou por quem arremessados. Natal era uma questão doméstica: comprava-se um pinheirinho, punha-se na sala, penduravam-se umas bolas coloridas e pronto. Para a passagem do ano, vestia-se de branco, soltavam-se fogos.

 

A transformação começou lá por 1989: caiu o muro de Berlim, a União Soviética acabou, abriram-se os mercados, os “ventos da mudança” sopraram – como cantavam os Scorpions, na MTV – e trouxeram consigo pastas de dentes Crest, Nike Airs e luzinhas made in Korea. No Jornal Nacional, o presidente pilotava um jet ski. No prédio em frente, uma ou outra janela começava a piscar, iluminada pela árvore de natal, em sintonia com os novos tempos.

 

Com FHC e a estabilização da economia, as luzinhas saíram das salas e tomaram as frentes das casas, as fachadas dos prédios. Cada jardinzinho se esforçando para vencer o próximo, na livre concorrência da decoração natalina. As árvores luminosas e as frases de “Boas Festas!” e “Feliz Natal!”, escritas com os fios retorcidos, eram símbolos do recém conquistado consumo da classe média: depois de anos de contenções, a primeira florada de abundância, como as pizzas com borda recheada de Catupiry, o hot dog com duas salsichas, a bunda da Carla Perez.

 

Foi nos anos Lula, contudo, que a democratização das luzinhas coreanas atingiu seu auge. As classes D e E ascenderam, as lampadazinhas desceram. Como trepadeiras tinhosas, elas atravessaram as grades dos edifícios, ganharam as ruas, tomaram os postes, canteiros centrais, enredaram prédios, avenidas inteiras. O povo vem de longe para ver a decoração da Paulista: luzes brancas e coloridas, estáticas e intermitentes; algumas, até, penduradas em galhos ou postes, imitam gotas — ou seriam flocos? — caindo do céu.

 

A multidão aglomera-se nas calçadas, passa devagarzinho dentro do carro, tira fotos com o celular. No trânsito parado, o espírito não é nada natalino. A direita reclama: “povo nos Jardins?! Povo no aeroporto?! Povo por todo lado! Agora é assim? Vão ficar aqui, atravancando nosso caminho?” A esquerda resmunga: pensava que, no dia em que o povo tomasse a cidade, viria tocando tambores de maracatu, o jongo da serrinha, carregando em estandartes as raízes da nossa cultura. “Então é isso que eles querem? Papais Noéis de isopor, árvores de aço e lâmpadas, carro e celular com câmera? Tanta saliva gasta cantando Geraldo Vandré para terminar nesse Jingle Bell de teclado Casio...”

 

Ontem, passei meia hora numa esquina, entre forasteiros e locais, vendo uma agência bancária piscar como um vaga-lume e revelar nossos rostos admirados, raivosos ou frustrados. Prestemos atenção: talvez as milhares de luzinhas revelem alguma coisa —além do dinheiro no bolso — sobre os anos que vão nascer. O que será?

 

 

Escrito por Antonio Prata às 22h43

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Antonio Prata Antonio Prata é escritor e colunista da Folha.


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