Antonio Prata

Crônicas e outras milongas

 

So long, compañeros!

Caríssimos e caríssimas, tenho uma boa notícia a todos vocês que, no último ano, freqüentaram essa festa vazia, esse show miado, essa passeata na Paulista com meia dúzia de dois ou três gatos pingados: o martírio acabou. Nos próximos dias, o autor desse blog banguela o desligará dos aparelhos, interrompendo os bits de seu coração e dissolvendo-o no éter internético.  

 

Ano que vem, espero, com mais tempo para postar – ou, como escreveu uma leitora, com tempo para “mais divagação e menos divulgação” -, ressuscitarei esta página.

 

Até lá! E agradeço a todos os que passaram por aqui durante os últimos doze meses: pela paciência, pela generosidade e pela esperança, que é a última que morre – mas morre também.

Abraços!

Escrito por Antonio Prata às 13h02

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Crônica e humor no CCBB

Terça-feira agora, 22 de novembro, eu, Tutty Vasquez e Ubiratan Brasil falaremos sobre humor e crônica no CCBB, Centro Cultural Banco do Brasil. É às 19:30, de graça e naquele prédio lindão no centro de São Paulo. Como já dizia Greta Garbo: não nos deixem sós!

Escrito por Antonio Prata às 02h16

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USP e PM

Apesar dos argumentos apresentados, continuo acreditando que afastar a PM da universidade não é bom nem para a universidade, nem para a PM, nem para o resto da população. Se a PM comete abusos na USP, imagina como age no Capão?

É preciso mudar a mentalidade da polícia, não evitar que ela cometa abusos só contra uma parcela da população.

Escrito por Antonio Prata às 13h58

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USP, PM e os que discordaram de mim

Meu texto de ontem (quarta, 10/11) sobre a invasão da reitoria gerou inúmeros e-mails a favor e contra. Curioso que, em temas bem menos polêmicos, recebi uma quantidade enorme de insultos, mas quando o assunto era realmente espinhoso, como a invasão da reitoria e a presença da PM na USP, foram-me enviadas mensagens, em sua maioria, muito civilizadas. Publico aqui dois dos textos que achei mais sensatos, discordando de mim:

 

Somos alunos da ECA-USP e visto a falta de imparcialidade da mídia com referência aos últimos acontecimentos ocorridos dentro da Universidade de São Paulo, cremos ser importante divulgar o cenário real do que realmente se passa na USP. Alguns fatos importantes que gostaríamos de mostrar:

 

- O incidente do dia 27/10/11, quando 3 alunos foram pegos portando maconha, NÃO foi o ponto de partida das reivindicações estudantis. Aquele foi o estopim para insatisfações já existentes.

 

- Portanto, gostaríamos de explicitar que a legalização da maconha, seja dentro da Cidade Universitária ou em qualquer espaço público, não é uma reivindicação estudantil. Alguns grupos até estão discutindo essa questão, mas ela NÃO entra na pauta de discussões que estamos tendo na USP.

 

- Os alunos da USP NÃO são uma unidade. Dentro da Universidade há diversas unidades (FFLCH, FEA, Poli, etc.) e, dentro de cada unidade, grupos com diferentes opiniões. Por isso não se deve generalizar atitudes de minorias para uma universidade inteira. O que estamos fazendo, isso no geral, é sim discutir a situação atual em que se encontra a Universidade.

 

- O Movimento Estudantil, responsável pelos eventos recentes, NÃO é uma organização e tampouco possui membros fixos. Cada ação é deliberada em assembleia por alunos cuja presença é facultativa. O que há é uma liderança desse movimento, composta principalmente por membros do DCE (Diretório Central dos Estudantes) e dos CAs (Centros Acadêmicos) de cada unidade. Alguns são ligados a partidos políticos, outros não.

 

- Portanto, os meios pelos quais o Movimento Estudantil se mostra (invasões, pixações, etc.) não são decisão de maiorias e, portanto, são passíveis de reprovação. Seus fins (ou seja, os pontos reais que são discutidos), no entanto, têm adesão muito maior, com 3000 alunos na assembleia do dia 08/11.

 

- Apesar de reprovar os meio usados pelo Movimento Estudantil (invasões, depredação), não podemos desligitimar as reivindicações feitas por esses 3000 alunos. Os fatos não podem ser resumidos a uma atitude de uma parcela muito pequena dos universitários.

 

Sabendo do que esse movimento NÃO se trata, seguem suas reinvidicações: 

 

DISCUSSÃO DO CONVÊNIO PM-USP / MODELOS DE SEGURANÇA NA USP

 

A reivindicação estudantil não é: PM FORA DO CAMPUS, mas antes SEGURANÇA DENTRO DO CAMPUS. Os estudantes crêem na relação dessas reivindicações por três motivos:

 

A PM não é o melhor instrumento para aumentar a segurança, pois a falta de segurança da Cidade Universitária se deve, entre outros fatores, a um planejamento urbanístico antiquado, gerando grandes vazios. Iluminação apropriada, política preventiva de segurança e abertura do campus à populacão (gerando maior circulação de pessoas) seriam mais efetivas. Mas, acima de tudo...

 

A Guarda Universitária deve ser responsável pela segurança da universidade. Essa guarda já existe, mas está completamente sucateada. Falta contingente, treinamento, equipamento e uma legislação amparando sua atuação. Seria muito mais razoável aprimorá-la a permitir a PM no campus, principalmente porque...

 

A PM é instrumento de poder do Estado de São Paulo sobre a USP, que é uma autarquia e, como tal, deveria ter autonomia administrativa. O conceito de Universidade pressupõe a supremacia da ciência, sem submissão a interesses políticos e econômicos. A eleição indireta para reitor, com seleção pessoal por parte do governador do Estado, ilustra essa submissão. O atual reitor João Grandino Rodas, por exemplo, era homem forte do governo Serra antes de assumir o cargo.

 

POSTURA MAIS TRANSPARENTE DO REITOR RODAS / FIM DA PERSEGUIÇÃO AOS ALUNOS

 

Antes de tudo, independentemente de questões ideológicas, Rodas está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo por corrupção, sob acusação de envolvimento em escândalos como nomeação a cargos públicos sem concurso (inclusive do filho de Suely Vilela, reitora anterior a Rodas), criação de cargos de Pró-Reitor Adjunto sem previsão orçamentária e autorização legal, e outros.

 

No mais, suas decisões são contrárias à autonomia administrativa que é direito de toda universidade. Depois de declarar-se a favor da privatização da universidade pública, suspendeu salários em ocasiões de greve, anunciou a demissão em massa de 270 funcionários e, principalmente, moveu processos contra alunos e funcionários envolvidos em protestos políticos.

 

Rodas, em suma: foi eleito indiretamente, faz uma gestão corrupta e destrói a autonomia universitária.

 

Você pode estar pensando…

 

MAS E O ALUNO MORTO NO ESTACIONAMENTO DA FEA-USP, ENTRE OUTRAS OCORRÊNCIAS?

Sobre o caso específico, a PM fazia blitz dentro da Cidade Universitária na noite do assassinato. Ainda é bom lembrar que a presença da PM já vinha se intensificando desde sua primeira entrada na USP, em Junho/2009 (entrada permitida por Rodas, então braço-direito de Serra). Mesmo assim, ela não alterou o número de ocorrências nesse período comparado com o período anterior a 2009. Ao contrário, iniciou um policiamento ostensivo, regularmente enquadrando alunos, mesmo em unidades nas quais mais estudantes apoiam sua presença, como Poli e FEA.

 

MAS E A DIMINUIÇÃO DE 60% NA CRIMINALIDADE APÓS O CONVÊNIO USP-PM?

São dados corretos. Porém a estatística mostra que esta variação não está fora da variação anual na taxa de ocorrências dentro do campus ( http://bit.ly/sXlp0U ). A PM, portanto, não causou diminuição real da criminalidade na USP antes ou depois do convênio. Lembre-se: ela já estava presente no início do ano, quando a criminalidade disparou.

 

MAS, AFINAL, PARA QUE SERVE A TAL AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA?

Serve para que a Universidade possa cumprir suas funções da melhor maneira possível. De maneira simplista, são elas:

- Melhorar a sociedade com pesquisas científicas, sem depender de retorno financeiro imediato. 

- Formar cidadãos com um verdadeiro senso crítico, pois mera especialização profissional é papel de cursos técnicos e de tecnologia.

 

Importante: autonomia universitária total não existe. O dinheiro vem sim do Governo, do contribuinte, porém a autonomia universitária não serve para tirar responsabilidades da Universidade, mas sim para que ela possa cumprir essas responsabilidades melhor.

 

COMO ISSO ME AFETA? POR QUE EU DEVERIA APOIA-LOS?

As lutas que estão ocorrendo na USP são localizadas, mas tratam de temas GLOBAIS. São duas bandeiras: SEGURANÇA e CORRUPÇÃO, e acreditamos que opiniões sobre elas não sejam tão divergentes. Alguém apoia a corrupção? Alguem é contra segurança? 

 

O que você acha mais sensato:

- Rechaçar reivindicações justas por conta de depredações e atos reprováveis de uma minoria, ou;

- Aderir a essas mesmas reivindicações, propondo ações mais efetivas?

 

Você tem a liberdade de escolher, contra-argumentar ou mesmo ignorar.

Mas lembre-se de que liberdade só existe com esclarecimento.

Esperamos ter contribuído para isso.

Se você se interessa pelo assunto, pode começar lendo este depoimento: http://on.fb.me/szJwJt 

Bárbara Doro Zachi

Jannerson Xavier Borges

PS: Já que a desconfiança é com a mídia, evitamos linkar material de qualquer veículo.

 

Escrito por Antonio Prata às 11h25

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USP, PM e os que discordaram de mim II

 

 

USP - O que a mídia não viu e o debate inteligente que perdemos

Rogério Godinho

O baseado não tem nada a ver com a questão. Começou bem antes disso, na verdade. Se você leu jornais e revistas, deve achar que todos os alunos que querem a PM fora são comunistas, maconheiros, desocupados, filhinhos de papai, etc. Então, peço que leia este texto. Principalmente se acha que o assunto é uma perda de tempo.

Primeiro, eu sou contra a ocupação da reitoria. Segundo, é fato que a lista de coisas erradas parece não ter fim. Fiquei puto porque os radicais conseguiram destruir o debate. Afastaram a imprensa (bateram inclusive), misturaram críticas ao capitalismo, até molotov tinha ontem (suprema idiotice).

Mas a estupidez pra mim termina aí. Não acredite que a maior parte das pessoas lá está protestando a favor do comunismo, leninismo ou qualquer ismo antigo. Não é verdade, embora seja sempre legal divulgar esse símbolo, a reação das pessoas é forte e imediata.

O que está realmente mobilizando a parte pensante do grupo é um debate bem complexo sobre autonomia universitária, que tem raízes históricas (até medievais) e um conceito educacional relevante. Não é à toa que Harvard tem uma polícia universitária. Aliás, são muito eficientes (isso não quer dizer que não tenha assaltos, eu soube de dois casos enquanto estive lá).

De qualquer forma, parece evidente que vale discutir sim. Principalmente porque esta ainda é a principal universidade do País e precisa ser um modelo para o resto (que péssimo trabalho alunos e reitoria tem feito até agora).

E a discussão é a seguinte: a universidade pública se inspira em um modelo em que os alunos podem influenciar a gestão do espaço. Então a briga começou quando este reitor foi escolhido de uma maneira que os alunos consideram arbitrária (existe um protocolo e os alunos consideram que ele não foi seguido). E começaram os embates.

Aí o reitor – se sentindo inseguro – pediu ao governador para colocar a PM lá. Um mês depois do convênio ser assinado, uma aluna foi baleada. Para os alunos, parecia que a segurança não tinha melhorado nada.

A segurança é de fato um tema polêmico, mas é complexo e merecia sim ser discutido. A área da USP é grande demais e mal iluminada, então o contingente necessário para dar segurança teria de ser enorme. E isso não vai acontecer. Por isso, os alunos preferem iluminação e um sistema de vídeo.

Some isso ao fato de que existe um longo histórico de truculência, alunos de todo tipo e perfil já reclamaram contra a PM e existe uma quantidade grande de casos engavetados. Enxergue isso do ponto de vista da autonomia universitária (pesquise o tema, se tiver interesse). O aluno consciente se sente ferido sem receber nada (nem segurança) em troca. Inclusive, a PM já respondeu até a professores que não estão lá para dar segurança ao indivíduo e sim ao patrimônio. Será que não vale mesmo a pena discutir um modelo melhor?

A movimentação dos estudantes foi estúpida porque foi feita da forma errada e no momento errado. Mas o fato é que o debate não tem nada a ver com fumar maconha e sim com um conceito importante e que merecia ser discutido. Pena que nenhum jornalista teve cérebro pra abordar isso em uma matéria. Dá muito mais ibope fazer matéria caricata, mesmo que a consequência seja incentivar o preconceito nos outros. Bom trabalho, imprensa.

 

Escrito por Antonio Prata às 11h25

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Viagem Literária

Dos dias 25 a 27 de outubro participarei do programa Viagem Literária. Vou falar de livros que me marcaram - Campos de Carvalho, Cortázar, Drummond, Rubem Braga e outros. Estarei em Aguaí, dia 25, às 9 da manhã, em Vargem Grande do Sul dia 26, também às 9, e, mais tarde, às 3 da tarde, em Tapiratiba. Dia 27, falo às 10 da manhã em Mococa e às 8 da noite em Descalvado. Quem morar nessas cidades, tiver conhecidos por lá e gostar do que escrevo, vá ou recomende. E quem não gostar do que eu escrevo, se passar por uma biblioteca e vir um baixinho de óculos, com uma voz estranha, gesticulando muito, pode sair correndo. Até. (Ou não)

Escrito por Antonio Prata às 04h31

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Aviso aos navegantes(tarde do que nunca)

 Na crônica desta quarta, na Folha, menciono o sorvete de baunilha de uma tal Gelateria Rimini, na Bela Vista. Para evitar que o leitor se descabele diante do Google ou gaste as solas e a saliva deambulando pelos arredores da 13 de Maio, aviso: Gelateria Rimini não existe. Contudo, não o deixarei na mão, meu irmão sorvetófilo. Indico aqui a melhor sorveteria que conheço, a Bacio di Latte, na Oscar Freire. Só não a citei na crônica por dois motivos:

A)                                Eles não têm sorvete de baunilha, que não é dos meus sabores preferidos, mas era fundamental no texto.

B)                                 Como a crônica vai descambando pra outras searas bem distantes das papilas gustativas, achei que falar de um local real poderia acabar não sendo uma homenagem, mas um constrangimento.

 Por fim, mas não menos importante: há na crônica de hoje um link. Eu digo que o link leva a mais informações sobre a emocionante história da baunilha. Não é verdade. Não, não foi  um erro, foi um presente surpresa pro leitor mais enxerido. Quem tiver se dado ao trabalho de digitar o endereço (ou clicar aí em cima) terá caído (ou cairá) na página da revista New Yorker, num texto genial no qual me inspirei para escrever o meu. O autor é Paul Simms, roteirista de TV, com passagens pelos Simpsons, The Flight of the Conchords, News Radio, e, atualmente, no Boardwalk Empire. Vale a leitura.

 

Escrito por Antonio Prata às 04h29

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Bienal do Livro de Pernambuco

Pernambucanos, turistas de passagem por Recife, imigrantes, degredados e passageiros em conexão que por ventura, vacilo ou narcolepsia perderem o vôo: neste sábado, 24, estarei na Bienal do Livro de Pernambuco, às 19:00 horas (ou sete da noite, para os íntimos), para conversar com Samarone Lima sobre “Literatura, novas mídias e outras mentiras”. Não sei lhufas sobre “novas mídias”, mas prometo me esforçar no que tange à literatura e, principalmente, "outras mentiras".

Aparezcan!

Ps. não tenho ideia se, no que tange à crase, tange com ou sem a mesma, mas são quase quatro da manhã e conto com vossa eventual generosidade.

Escrito por Antonio Prata às 03h43

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No further questions, your honor

 

 

Poema de Natal

Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

 

    Mundo grande
    Carlos Drummond de Andrade 

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.


Escrito por Antonio Prata às 02h37

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Houston, we have a problem

           Publicado na revista Wish, edição especial HOMEM                                     

 

Pode parecer um pouco inconveniente tocar no assunto justamente numa edição dedicada ao homem – algo assim como falar em acidentes aéreos quando o avião começa a taxiar na pista –, mas é sempre melhor encarar nossos medos do que varrê-los para debaixo dos lençóis: estou falando da – hum, hum - broxada.

Quem nunca falhou, que atire a primeira pedra. (Ou seria mais adequado dizer: a primeira pena?) Poucas situações são mais frustrantes na vida de um homem. A mulher ali, nua, sua, bela e cheirosa, e você lá, frouxo, mocho, troncho, incapaz de desfrutá-la. É como estar no Playcenter, com o Passaporte da Alegria nas mãos, mas ser pequeno demais para andar na montanha russa.

Nessas noites inglórias, quando o sujeito percebe que a ansiedade está vencendo o desejo e que ele encontra-se, literalmente, em maus lençóis, costuma perguntar-se por que, ó Deus, está sendo castigado. Durante o jantar, tudo ia tão bem; ainda no elevador, ao beijar a moça, os sinais vitais estavam claros e perceptíveis...

Em filmes, seriados e programas de humor, o que faz um homem falhar é sempre um defeito da mulher. Na hora agá, o I-pod da moçoila desenterra um antigo hit do Trem da Alegria, ela diz que seu maior ídolo é o Papa Bento XVI ou, ao tirar a calça, revela um grande escudo do Palmeiras tatuado na nádega esquerda.

Sejamos francos, meus caros: um homem jamais brochará por conta de um defeito da mulher. (Mesmo um defeito incontornável, como torcer para o Palmeiras.) Muito pelo contrário, é a admiração que nos derruba: os defeitos nos excitam. Quem o diz não sou eu, mas Sigmund Freud. Em 1912, o pai da psicanálise dedicou um texto inteiro a explicar porque, às vezes, o charuto recusa-se a funcionar como um charuto: “Sobre a tendência universal à desvalorização na esfera do amor”.

A coisa funciona (ou melhor, não funciona) da seguinte forma: quando somos bebês, o desejo erótico é todo direcionado à mãe. Logo, contudo, percebemos que fazer sexo com aquela que nos pôs no mundo é proibido e tido como algo sujo e repulsivo. Somos, então, tomados por um grande sentimento de culpa e vamos para um canto do parquinho, tramar a morte do pai e sofrer em silêncio a perda do primeiro e insubstituível grande amor.

Pois bem, quando você é adulto e conhece uma mulher muito perfeita, a famosa “mulher pra casar”, o inconsciente a liga imediatamente à sua mãe, trazendo à tona aqueles velhos e conflituosos sentimentos e fazendo com que o sangue que deveria estar todo concentrado lá embaixo suba para as bochechas, enquanto você decide se abrirá a fala com “nunca me aconteceu antes” ou “sabe, acho que exagerei no vinho”.

Segundo Freud, para que o desejo flua normalmente é preciso que desvalorizemos de algum modo a mulher, distanciando-a assim de nossa sagrada progenitora. É por isso que, segundo ele, tantos homens procuram mulheres de classes inferiores, ou intelectualmente mais fracas. É por isso que, para desespero das moças mais finas, não importa quantos livros tenhamos lido ou quantos diplomas obtido, sempre nos sentiremos atraídos pela vulgaridade, por dois argolões dourados e um decote cavado.

Isso não significa, evidentemente, que só as cachorras do funk são capazes de mexer com a libido masculina. Mas significa que, para o surgimento do desejo, o homem precisa conseguir imaginar a mulher com quem estiver, por mais elegante que seja, dançando um funk pancadão – metaforicamente falando, é claro.

Toda essa teoria, contudo, de nada adianta quando você se vê envolvido naquela pequena tragédia, filha da ansiedade, mãe do desespero. Nessas horas, é preciso agarrar-se às palavras de outro sábio europeu, oriundo da Bélgica, Jean Claude Van Damme: “retroceder nunca, render-se, jamais!”, pois é mais digno cair lutando que bater em retirada. E se, mesmo seguindo a máxima do Grande Dragão Branco, você perceber que a brochada é inevitável, meu amigo, relaxa e prosa. É sempre possível que uma boa conversa no vestiário mude a atitude do time no segundo tempo. Ou não: afinal, acidentes acontecem. Desculpe tocar no assunto...

Escrito por Antonio Prata às 04h52

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Tempo

Publicado na revista Wish

O bem mais valioso de nossa época não é o diamante nem o petróleo, a fórmula da Coca-cola ou o sorriso da Natalie Portman: é o tempo. Obedecendo à lei da oferta e da procura, quanto mais escasso ele fica, mais caro nos é. A seca temporal é geral e irrestrita, tão democrática quanto a calvície, a saudade e a morte: eu não tenho tempo, você não tem tempo, o Eike Batista não tem tempo, o cara que está vendendo bala no farol, em agônica marcha atlética para recolher os saquinhos dos retrovisores, antes que abra o sinal, também não tem.

Como vocês devem saber, o principal sintoma desta doença crônica – sem trocadilho - é a ansiedade. Toda manhã, flagro-me aflito, escovando os dentes, com pressa. Vejo-me batendo os pés no hall, enquanto o elevador não chega. Até o segundo que o cursor do celular leva para piscar, num SMS, permitindo-me digitar outra letra da mesma tecla, deixa-me exasperado.

Antigamente, não era assim. Na minha infância, os dias tinham trinta horas, alguns chegando mesmo a quarenta, se bem me lembro. Não, não é que eu faça hoje mais coisas do que antes. Já pensei nisso, mas veja só quantas obrigações eu tinha no passado: cinco horas na escola, lição de casa, inglês, bateria, natação, jantar com os pais, toda noite, sem contar os séculos ao vivo ou ao telefone tentando convencer alguma menina a beijar-me na boca... E, mesmo assim, ainda sobravam infinitos latifúndios improdutivos, impossíveis de se ocupar, por mais que assistisse televisão, tirasse cochilos vespertinos, lesse livros, fosse às casas dos amigos jogar videogame, falar mal dos outros ou simplesmente juntar nossos tédios, olhar as paredes e escutar o tic-tac dos relógios.

Das duas, uma: ou as horas eram mais abundantes do que hoje, ou, então, tinham uma incrível capacidade regenerativa, que perderam: a cada duas ou três horas mortas, uma nova hora nascia, fresquinha, como as células de uma pele jovem.

Acho que foi lá pelo ano dois mil que e o dia começou a encolher, chegando a essas míseras vinte quatro horas – com sensação térmica de dezesseis. Talvez tenha sido esse o verdadeiro bug do milênio: na virada de noventa e nove para o zero zero, todos os ponteiros, vendo-se livres do velho milênio e admirando o vazio que se abria adiante, como um retão num circuito de fórmula um, resolveram meter os pés no acelerador, de modo que acabamos assim, espremidos entre prazeres e obrigações, aflitos, escovando os dentes com pressa, andando em círculos, no hall do elevador.

Há quem diga que a culpa é da melhora das comunicações e, consequentemente, do envio de dados. Com a informação viajando tão rápido, desaprendemos a arte da espera. Antigamente, aguardar era normal. Estávamos sempre esperando alguma coisa chegar. Uma carta, pelo correio. Um disco, do exterior. Uma foto, um texto ou um documento, via portador. Esses hiatos eram tidos como normais, uma brecha saudável, pausa para o cigarro ou o café, a prosa, a leitura de uma revista, o devaneio, a conversa na janela, a morte de bezerra. Hoje, não. Tá tudo aqui, e, se não está, nos afligimos. Queremos o pássaro na mão E os dois voando. Por que é que ainda não trouxeram esses dois que tão no céu, diabo?! Já não era melhor ter pego logo os três, de uma vez, otimizando custos e esforços?

 Enquanto não descobrimos a cura para este mal, a única saída é aprender a lidar com ele. Há que cercar com muros altos certas horas do relógio, para que nada as possa roubar de nós. Fazer diques de pedra em torno da hora de ficar com nosso amor, da hora de trabalhar no projeto pessoal, da hora do esporte, de ler um livro, encontrar um amigo. Mesmo assim, vira e mexe, vêm as obrigações, como um tsunami, ou os eventos sociais, como meteoros, e derrubam as barragens. Não há nada a fazer, senão reconstruir os muros, ainda mais fortes do que antes.

Você sente a mesma coisa, ou sou só eu? Talvez seja só eu. Quem sabe, numa manhã de terça-feira, lá por 1998, eu tenha perdido a hora, para nunca mais a encontrá-la? Ficarei assim, trinta minutos atrás do resto do mundo, tentando alcançá-lo, ininterruptamente, como quem corre atrás de um trem, até o fim dos tempos. Será que foi isso?

Escrito por Antonio Prata às 03h33

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Terceiro ato

Publicado na Revista VIP    

      

 

Aos dez anos, eu acreditava que a idade adulta começava aos vinte. Aos vinte, achei que ainda não havia chegado lá e decretei que adultos eram só os com mais de trinta. (Convenhamos, a apenas seis primaveras da oitava série você é, no máximo, um pós-adolescente: provavelmente ainda mora com os pais, deixa a toalha molhada em cima da cama e siglas como IPTU ou FGTS fazem muito menos sentido do que MILF ou THC.) Ao completar a terceira década de vida, contudo, não tive como protelar: alguns fios brancos no queixo, projetos de rugas nos cantos dos olhos e entradas moderadas avançando pelo couro - já não tão - cabeludo me atestavam, no espelho; eis aí um espécime maduro, acabado e plenamente desenvolvido de Homo sapiens sapiens. E, sabe o que? Fiquei bastante contente com a descoberta.

 

A infância é terrível. Você precisa chamar as autoridades competentes até mesmo para limpar a bunda, é incapaz de organizar verbalmente as ideias mais rudimentares e quando o faz por outras vias, como, por exemplo, pintando a parede da sala com seu estojo de canetinhas, fica um mês sem sobremesa. A infância é uma espécie de condicional, após a solitária do útero. Uma liberdade vigiada, que deve te preparar para a próxima fase infeliz: a adolescência. Ser adolescente é mais ou menos como mendigar em Paris ou estagiar numa empresa bacana: você já está lá, onde tudo acontece, mas não pode participar da festa; porque é duro, porque é nerd, porque é prego, ou porque tem que decorar o número atômico dos alcalinos terrosos e a função das mitocôndrias, para a prova da FUVEST.

 

Só tive o que comemorar, portanto, quando terminaram essas duas fases de tutela e me vi finalmente livre. Aos trinta, você escolhe bola, campo e o time em que quer jogar. Tá bom, pode reclamar que sua bola não é uma Jabulani, que o gramado está mais pra uma várzea do Tamanduateí do que pro tapete do Camp Nou, que no seu time só tem perna de pau. Mas uma das vantagens da idade adulta é que, ao contrário da infância e da adolescência, que passam num piscar de olhos – ou num xixizinho e numa ejaculação precoce, para nos atermos a imagens mais condizentes com o assunto -, a maturidade dura quatro décadas; é tempo suficiente para você se acostumar consigo mesmo ou para mudar a situação. E talvez seja essa a maior lição da maturidade: saber discernir entre as coisas que você pode e precisa lutar para mudar e aquelas que deve simplesmente aceitar. Na infância ou na adolescência, ser ruim nos esportes era algo que me atormentava. “Por que, ó, Deus, fizeste-me o último a ser escolhido em todos os times, na Educação Física?”, eu perguntaria ao Senhor, se Nele acreditasse e decidisse importuná-Lo com meus resmungos. Hoje, isso é apenas um dado, quase indiferente, como ter cabelo castanho ou ser canhoto.

 

Se você está em torno dos trinta, pode lutar durante os próximos quarenta anos para realizar projetos e conquistar a(s) mulher(es) por quem estiver afim, para correr uma maratona ou ganhar dinheiro; mas vai ter que aceitar suas orelhas de abano ou pernas finas, o fato de não ter a lábia de Don Juan, a inteligência do Einstein nem a conta do Bill Gates. E por que não aceitaria? O mundo é grande, tá cheio de gente interessante e tem um monte de coisa boa pra fazer, mesmo não podendo pegar sempre a mais gata da festa, jamais descobrir uma segunda teoria da relatividade nem comprar um iate, numa quarta-feira à tarde, se estiver um pouco entediado.

 

Três décadas. Dá o que pensar. Mas não tenhamos pressa. Como disse uma amiga minha, nos últimos minutos dos meus vinte e nove: “Não se preocupe, meu querido, os homens começam as trinta”. Com calma, vamos aproveitar esse longo terceiro ato, antes que chegue o quarto – a velhice – e o quinto - sobre o qual não convém falar, por estar muito lá pra frente, só bem depois dos noventa. Ou dos cem? Cento e dez? Cento e quinze, cento e vinte...

Escrito por Antonio Prata às 15h47

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O taxista de cabelo branco

Crônica escrita para o site do Instituto Moreira Salles, em homenagem a Rubem Braga.

 

Dos taxistas aqui da esquina, só sei o nome do Adão. Na primeira vez que peguei seu táxi, ele apontou para fora da janela, disse “olha só, as goiabeiras da Henrique Schaumann tão carregadas”, e, com esse comentário tão bragueano, conquistou minha eterna admiração. Adão conhece todas as árvores frutíferas perdidas pelas calçadas e canteiros de nossa cidade e, sempre que me leva a algum lugar, faz um relatório detalhado de seu esparso pomar: conta que as jacas do Parque da Luz tão quase caindo em cima dos carros, que a mangueira da Avenida Pacaembu tá atraindo um bando de maritacas, que houve um bafafá na zona leste porque a prefeitura ameaçou cortar um abacateiro, lá na rua Padre Adelino.

 

Muito diferente do Adão é o taxista de cabelo branco. Seu nome não sei e admito que, até a última quinta, não estava interessado em saber. Havia, entre mim e o taxista de cabelo branco, um certo desconforto. Veja, não sou homem de alimentar inimizades e costumo preferir o acordo ao conflito, mas em algumas ocasiões não há consenso possível. Antes da última Copa do Mundo, calhamos de falar sobre futebol, eu reclamei do Dunga, o sujeito resolveu apoiar o obtuso treinador e, irritado, fez um discurso defendendo a supremacia da prudência, da ordem e da disciplina sobre a ousadia, a criatividade e a beleza – como eu poderia ficar quieto?

 

Estou longe de ser um aventureiro. Sou caseiro e covarde como um cocker-spaniel. Talvez por isso mesmo, por procurar no mundo o que não trago em mim, é que prefira o gol de bicicleta, o Soneto da Fidelidade e um solo de chaleira de Hermeto Pascoal à seleção alemã, aos enxadristas, à ponte Rio Niterói. O taxista de cabelo branco, contudo, não pensa como eu. Quando tentei convencê-lo de que o futebol não tinha nenhum sentido senão pela beleza, ele riu, e, como todos os arautos da mediocridade, mencionou 82 com desprezo. Eu afirmei que preferia a derrota de 82 à vitória de 94, e foi aí que a conversa melou de vez; ele bufou, ligou o rádio e aquele ruído instalou-se entre nós, definitivamente.

 

Não, não definitivamente. Na última quinta, eu e o taxista de cabelo branco estávamos na Vinte e Três de Maio, à caminho de Congonhas, imersos em nossa silenciosa discórdia, quando tocou meu celular. Durante os últimos meses, eu e minha mulher vínhamos procurando uma lugar para morar. Depois de um sem número de tristes visitas a quintais azulejados, pesadelos de cerejeira & esquadrias de alumínio, finalmente encontramos uma linda casa com jardim, uma mesa à sombra duma jabuticabeira, onde vislumbramos cafés da manhã que entrariam pela tarde, almoços que entrariam pela noite; e os filhos, claro, que em breve entrarão em nossas vidas. Fizemos uma proposta um pouco abaixo do que o proprietário estava pedindo, ele ficou de pensar, sumiu e, quando já estávamos quase desistindo de receber uma resposta, eis que meu celular começa a tremer e gritar, exibindo o nome do homem na telinha – pequeno oráculo de cristal líquido. Atendi, nervoso. Ele disse que topava, fechamos negócio.

 

Quando desliguei, já estávamos no aeroporto, o carro encostando, com o pisca alerta ligado. “Comprei uma casa!”, eu disse, exultante, ao motorista. “Vou pegar dinheiro do banco, vou pagar juros por muitos e muitos anos, mas terei uma casa!”. O taxista de cabelo branco me sorriu, genuinamente feliz. “Não tem problema pagar pro banco. Importante é que a casa é sua. É um grande passo na vida”.

 

Sorri de volta, entendendo e compartilhando a alegria de meu ex-antípoda: endividar-se para garantir um teto e um jardim era o meio caminho entre nós dois, um ato contendo a mesma medida de ousadia e prudência. Apertamos as mãos e fui para o Rio de Janeiro, contente com meu futuro e acreditando na concórdia universal.

Escrito por Antonio Prata às 22h07

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On the road

 

Passei boa parte das férias da minha infância em Lins, cidade interiorana onde moravam meus avós paternos. Como Lins fica a quatrocentos e trinta quilômetros de São Paulo, não seria incorreto dizer que passei boa parte das férias da minha infância dentro do carro, indo ou voltando de Lins. Da cidade, guardo poucas lembranças: já da estrada, das infinitas horas que separavam a nossa casa da de nossos avós, lembro de muita coisa.

 

O começo da viagem era sempre animado. Eu e minha irmã, que não víamos o pai durante a semana, falávamos sem parar sobre os acontecimentos mais importantes dos últimos dias: “Eu tô com dois dentes moles!”, “A tia Silvia tá grávida!”, “O Duílio é muito burro, ele desenhou um homem com o bigode em cima do nariz!”. Quando sossegávamos um pouco, meu pai contava uma ou outra novidade. Dizia que havia falado com a nossa avó e que ela já estava fazendo a gelatina de canela que a gente gostava, que esse ano o presépio estava ainda mais caprichado, com uns boizinhos e vacas que o meu avô tinha mandado fazer em Bauru, e a gente ficava ali, olhando o mato passar borrado pela janela e imaginando o que faria primeiro quando chegasse , se corria para o presépio ou para as gelatinas.

 

Quatrocentos e trinta quilômetros, contudo, são quatrocentos e trinta quilômetros, de modo que mais cedo ou mais tarde o tédio se abatia sobre nós e surgia a pergunta incontornável: “Pai, falta muito?”. Sabíamos que a resposta era positiva, mas não nos importávamos. Queríamos era ouvi-lo dizer quanto, exatamente, pois meu pai tinha inventado uma unidade de medida para viagens muito mais interessante do que quilômetros, milhas ou nós: “Acho que faltam uns... Dezesseis banhos”. Fazíamos uma cara séria, como convém a viajantes escolados, e perguntávamos: “de chuveiro ou banheira?”. “Banheira”, dizia ele. “E caprichado, desses de lavar atrás da orelha e entre os dedos dos pés.” Então começávamos a simular os banhos, ao mesmo tempo em que os narrávamos, desde o momento de tirar a roupa até pentear os cabelos. Pelo retrovisor, ele conferia cada passo: “E as meias, tiraram as meias?”. “Tô entrando!”, dizia minha irmã. “Na banheira vazia?! Tem que encher!”. A alavanca do vidro direito era a água quente, a do vidro esquerdo, a fria. Enquanto o vento entrava no carro, botávamos os pés aos poucos no vão entre os bancos, testando a temperatura da água.  

 

O banho só era considerado terminado quando estivéssemos limpos, vestidos e penteados. Alongar o processo era fácil, sempre tinha um “esfrega as costas”, um “creme rinse” ou um “embaixo das unhas” para nos manter ocupados por mais alguns quilômetros. O problema era quando ele errava na conta, já estávamos na entrada da cidade e ainda tínhamos que tomar três ou quatro banhos. Então fazíamos o que chamávamos de “lava a jato”, método ultra rápido de assepsia, pelo qual era permitido lavar o corpo com a espuma do xampu e recomeçar o processo sem ter que pentear os cabelos. Uma ou outra vez ele chegou a estacionar o carro na esquina da casa da nossa avó, depois de seis horas de viagem, para que tirássemos a espuma dos olhos ou terminássemos de secar os cabelos.

 

Então entrávamos correndo casa adentro, comíamos as gelatinas, víamos as melhorias do presépio, éramos mimados pelo avô e pela avó. Mais tarde, antes de dormir, tomávamos banho de chuveiro. Um banho chato, com água de verdade e sabonete, que parecia durar muito mais quilômetros do que os do banco de trás do nosso carro.

Escrito por Antonio Prata às 02h30

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Convite de casamento

      Publicado na revista WISH

                          

Que que eu posso te dizer, Joana? Desculpa? Foi mal? Que você é uma amiga querida? Que eu te adoro? Mas de que adianta, agora que o casamento já passou e você não foi convidada?

Joana, você não sabe a confusão que é organizar um casamento. Se eu fizesse tudo de novo, além de uma “wedding planner”, teria contratado um diplomata, um egresso do Itamarati, formado em acordos e desacordos comerciais em Davos, Doha e Washington, só para administrar as complexas relações envolvidas na produção da festa. Nas mãos do meu private Barão do Rio Branco, jogaria a mais espinhosa das tarefas: a elaboração da lista. Ah, Joana, o coração é grande, mas a grana é curta, as famílias são numerosas e como vamos espremer todo mundo debaixo do mesmo toldo, com o preço do metro quadrado?!

Eu tinha cá pra mim que o casamento era uma celebração para a qual você chamava as pessoas mais queridas que havia trombado durante a vida. Antes de chegar nos prediletos, contudo, tem os obrigatórios. Família: tios, tias, primos, primas, maridos e esposas de todo mundo, do lado do noivo e da noiva. Só aí, Joana, já foram quase 60% dos bem-casados. Depois, vem o pessoal do trabalho. E o pessoal do trabalho antigo. Quando você vai ver, sobraram vinte convites pros amigos e uns trinta abacaxis no seu colo: quem é mais importante, o Pedro, que foi meu melhor amigo da primeira à oitava série, mas que hoje vejo muito pouco, ou o Marcos, que conheço há apenas seis meses, mas em cuja casa jantei na penúltima quinta? E como fazer pra chamar só três do futebol semanal? Se convidar um, tem que convidar os onze, que são vinte e dois, com as esposas, e vinte e nove, com os filhos. Joana, veja a que ponto cheguei: um mês antes da festa, ao saber que um grande amigo tinha se separado, sorri contente. “Vagou espaço pra mais um convidado!”

Se isso serve de consolo, te digo que seu nome sobreviveu, incólume, a três carnificinas. E foi só no último corte da lista -- quando um tio avô de Pelotas resolveu convidar-se, trazendo com ele a tia avó e uma primaiada sem fim – que você saiu. Pois, Joana, por mais querida que você seja, há de entender: é uma amiga avulsa. Nos conhecemos naquele acampamento Carroção, em 1987. Era melhor tirar você do que partir uma turma ao meio, do que separar maridos e esposas, pais e filhos, laterais de centroavantes, compreende? Não, talvez você não compreenda.

Ah, Joana, se eu casasse de novo, desistia de chamar a turma do futebol, nunca mais aparecia pra jogar e chamava você. Pronto. Mas agora é tarde. Espero que, como reparação, você aceite esta crônica e o convite antecipado para as bodas de prata, a realizarem-se em junho de 2035, em local ainda a definir. Pode levar seu marido, seus futuros filhos e netos, caso os tenha. Desculpa, Joana. Foi mal. Você é uma amiga querida e eu te adoro. Que mais posso te dizer?

Escrito por Antonio Prata às 21h25

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Antonio Prata Antonio Prata é escritor e colunista da Folha.


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